Compaixão e Misericórdia

Por Cardeal Orani João Tempesta*

São Paulo chama a Deus, em 1 Cor 1,1-7, de Pai das Misericórdias, sublinhando assim a sua infinita compaixão pelos homens, que ama muito intimamente. Talvez poucas verdades se repitam nos textos sagrados tão insistentemente como esta: Deus é infinitamente misericordioso e compadece-se dos homens, sobretudo daqueles que sofrem a miséria mais profunda, que é o pecado. Para que aprendamos bem, a Sagrada Escritura ensina-nos com uma grande variedade de termos e de imagens que a misericórdia de Deus é eterna, isto é, sem limites no tempo, imensa, sem limites de lugar nem de espaço; e universal, pois não se limita a um povo ou a uma raça, e é tão extensa e ampla quanto as necessidades do homem.

A Encarnação do Verbo, do Filho de Deus é prova desta misericórdia divina. Ele veio perdoar, veio reconciliar os homens entre si e com o seu Criador. A bondade de Jesus para com os homens, para com todos nós excede as medidas humanas. “Àquele homem que caiu nas mãos dos ladrões, que foi por eles desnudado, espancado, abandonado meio morto, Ele o reconfortou, curando-lhe as feridas, derramando nelas o seu azeite e vinho, fazendo-o montar a sua própria cavalgadura e instalando-o na pousada para que cuidassem dele, dando para isso uma quantia de dinheiro e prometendo ao hospedeiro que na volta pagaria o que gastasse a mais”.

Em Mt 5,7 nos diz: “bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançaram misericórdia”. Há uma especial urgência por parte de Deus em que os seus filhos tenham essa atitude para com os seus irmãos; Ele nos diz que a misericórdia para conosco se dará na proporção da que nós mesmos praticarmos: “com a medida com que medirdes sereis medidos” (Mt 7,2).

Se o nosso coração se endurecer diante das misérias e fraquezas alheias, a porta para entrarmos no Céu será terrivelmente mais estreita: “quem quiser alcançar misericórdia no céu deve praticá-la neste mundo”. E por isso, já que todos desejamos misericórdia, atuemos de modo a que ela chegue a ser o nosso advogado neste mundo, para que nos livre depois no futuro. No Céu há uma misericórdia a que se chega pela misericórdia terrena.

A misericórdia, como diz sua etimologia, é uma disposição do coração que nos leva a compadecer-nos – como se fossem próprias – das misérias que encontramos em cada pessoa e que nunca desaparecerão, por mais justas e bem resolvidas que possam parecer as relações entre os homens. Por isso, devemos exercê-la antes de tudo pela compreensão com os defeitos alheios, mantendo uma atitude positiva, benevolente, que nos inclina a pensar bem dos outros, a aceitá-los com as suas particularidades, a desculpar-lhes de bom grado as falhas e os erros, sem deixar de ajudá-los da forma mais oportuna. É uma atitude que parte do respeito pela igualdade radical de todos os homens, pois todos somos filhos de Deus, apesar das diferenças e peculiaridades de cada um.

Um coração compassivo e misericordioso transborda de paz e de alegria. Desse modo, alcançamos também essa misericórdia de que tanto precisamos, e deveremos isso àqueles que nos deram a oportunidade de fazer alguma coisa por eles mesmos e pelo Senhor. Santo Agostinho diz que a misericórdia é o polimento da alma, que a faz brilhar e ter uma aparência boa e formosa (cf. Santo Agostinho, Catena Aurea, Vol. I, pág.48).

O Ano da Misericórdia, experiência de fé na Igreja, com incidência na vida das famílias e comunidades, marcado por testemunhos, significativos gestos de reconciliação e perdão, é necessário para se alcançar nova etapa no cuidado das fraquezas e dificuldades dos irmãos. Um convite para que se busque a sabedoria da misericórdia. Em lugar de violência e disputas, que surja um tempo novo pela força da misericórdia e da compaixão.

“O Jubileu da Misericórdia não é e não deseja ser o Grande Jubileu do Ano 2000”, assegurou o Arcebispo Dom Rino Fisichella, e especificou que é um evento que respeita a vontade do Papa Francisco de chamar as pessoas à misericórdia, inclusive com pecados graves.

Em Cristo Jesus, somos todos irmãos! Ele, na sua benevolência, nos apresenta Deus como Pai amoroso e misericordioso. Como é bom poder contar com a paternidade de Deus em nossas vidas! Pois esta filiação Divina que recebemos em Jesus nos enche de uma verdadeira segurança, concedendo a nós a plena liberdade. Precisamos entender e acolher, a cada dia, esta seguridade que é encontrada unicamente em Deus, que nos faz viver a verdadeira fraternidade.

Portanto, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta e histórica. As intervenções divinas, ao longo da história da salvação, revelam o amor misericordioso de Deus. Toda a ação da Igreja se fundamenta na misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, não no direito e no legalismo rigorista. Por quanto, a Igreja é depositária e dispensadora da misericórdia aos homens. A credibilidade da Igreja passa pelo amor misericordioso e compassivo. É tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão.

CNBB 27-01-2016.
*Cardeal Orani João Tempesta é arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).